Antropologia

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Antropologia cultural

Introdução

Antropologia é o estudo da humanidade. Origina das ciências naturais, de humanidades e de ciências sociais.

As principais questões da antropologia são:


“O que define o Homo sapiens?”

“Quais os antepassados do Homo Sapiens Moderno?”

“Quais as características físicas humanas?”

“Como se comportam os humanos?”

“Porque existem variações e diferenças entre diferentes grupos de humanos?”

“Como o passado evolucionário do Homo Sapiens influenciou a sua organização social e cultural?”


Antropologia contemporânea é tipicamente dividida em quadro áreas:

- Antropologia cultural ou social

- Arqueologia

- Antropologia linguística

- Antropologia biológica ou física


Na antropologia, as sociedades humanas são classificadas em termos de complexidade social, desde bandos e tribos a chefias e estados. Cerca de 250.000 pessoas no mundo vivem em sociedades de bando, e subsistem principalmente da colecta de plantas e caça. No entanto, na história humana esta foi a organização social mais comum.

Os bandos dos Dobe Ju/’hoansi, localizados no sul do deserto Kalahari em África, são dos grupos mais investigados e estudados da história. Os Dobe obtêm cerca de 70% da comida de sementes, nozes e morangos; e apenas 30% das calorias provêm da caça. Os Dobe não valorizam propriedade privada e trabalham apenas 20 horas por semana, gozam de uma segurança alimentar maior e mais tempo livre que as sociedades modernas contemporâneas.

Tipologia

Elvin Service em 1962 propôs uma tipologia de sociedades, na obra Organização social primitiva: Uma perspectiva evolucionária. Dividiu as sociedades em categorias como bandos, tribos, sociedades de chefia e estados.

Bandos são colectores de comida nómadas sem qualquer estrutura política institucional. São geralmente compostos por 25 a 50 indivíduos familiares e praticam uma forma flexível de parentesco. Subsistem da colecta de comida e caça. Existe pouca especialização, propriedade privada e liderança é apenas ocasional. Por exemplo um líder pode emergir no contexto da caça mas quando regressa é incluído na sociedade sem qualquer posição de poder.

Tribos são maiores que bandos com cerca de 100 a 1000 indivíduos. As maiores densidades demográficas de tribos assentam em produção horticultural (produção e plantas). São um pouco mais sedentários devido à agricultura mas tendem a circular. Sociedades tribais, como por exemplo os Yanomani têm algumas diferenças de estatuto, mas são geralmente fluídas, a organização social é governada por relações de parentesco. Tribos são lideradas por um líder tribal cuja posição é alcançada através de estatuto, pelo reconhecimento, em vez de estatuto hereditário.

Sociedades de Chefe, ou chefia, são maiores que tribos e compostas por milhares de indivíduos. Por exemplo, nas Ilhas Trobriand as diferenças de estatuto são importantes e institucionais. Linhagem geneológica é geralmente valorizada. O estatuto do chefe é baseado em autoridade atribuída, ou posição hereditária. Aqui encontramos agricultura intensa para alimentar a maior densidade populacional.

Estados são a maior e mais complexa forma de organização social, com milhões de pessoas e com economia de trocas de mercado, especialização e relações impessoais. São caracterizados por autoridade centralizada, poder militar ou policial para manter a ordem. Actualmente todas as sociedades de bandos, tribos e chefias encontram-se incluídas sob organizações de estado.

Resumindo, nestas categorias o tamanho é uma distinção, bandos são pequenos com cerca de 25-50 pessoas, tribos são maiores com centenas de pessoas, chefias são ainda maiores com milhares e estados com milhões.

- Nas relações económicas os bandos são nómadas caçadores colectores;

- Tribos também são caçadores-colectores mas combinam isso com agricultura, um pouco mais sedentários;

- Em chefias encontramos agricultura intensa;

- Em estados temos trocas de mercado.

- Em liderança política bandos têm autoridade ou liderança ocasional (ex: caça);

- Em tribos temos líderes tribais com uma posição de poder formal alcançado;

- Em Chefias temos autoridade atribuída pela comunidade ou hereditária;

- E em Estados temos autoridade central, como reinos, democracias, ditaduras, etc, mas em todos eles existem sempre poder militar ou policial.

Voltando aos Bandos, 250.000 pessoas vivem em sociedades de bando, são foco de imensa investigação antropológica. Porquê? Parcialmente porque em quase toda a história humana (paleolítico) os humanos viviam em sociedades de bando, e se voltarmos e analisarmos o comportamento e adaptação dessas sociedades, que ainda existem, isso pode-nos informar acerca da herança comum de todos nós. Nessas sociedades encontramos os padrões básicos de comportamento humano de todas as sociedades do mundo, como junção de casais, criação de filhos, casamentos, partilha de comida, etc.

Uma característica importante é o tamanho do bando, é limitado pela capacidade de recursos ambientais onde vivem, e quase sempre permanecem abaixo do limite, e fazem isso ao aplicar métodos de controlo populacional, principalmente com tabus de sexo após parto, tabu para ter sexo após a parto de cerca de 1 ano a 2 anos ou até mais em algumas sociedades.


Dobe Ju/’hoansi

Dobe Ju/’hoansi significa “povo verdadeiro”. Consideram-se como simples pessoas, as únicas que conhecem, e é interessante que muitas sociedades do género se referem a si mesma do mesmo modo. O termo !Kung ou Bushmen são outro nome alternativo para Dobe Ju/’hoansi, mas são nomes dados por outros grupos vizinhos.

Os Dobe Ju/’hoansi são uma sociedade de bando típica e um dos grupos mais bem estudados e documentados na antropologia. Cerca de 50.000 vivem na Namíbia e Botswana (África).

Liderança é ocasional, embora os mais velhos são mais respeitados. São nómadas, procuram frutos, água e cada bando têm um número de poços de água para onde migram. Alguns homens Dobe praticam poliginia, um homem pode ter mais que uma mulher, mas os casamentos Dobe têm geralmente uma taxa de divórcio alta, o casamento é muito casual. Existem bandos de caça e colecta, mas a pesquisa mostra que a colecta é mais importante que a caça em termos de consumo calórico, e também prestígio social.

As mulheres Dobe são as principais colhedoras e obtêm cerca de 70% do total das calorias consumidas pelo bando. Embora a carne seja apenas 30%, é muito valorizada. Os homens caçam girafas, gnus (boi-cavalo), antílopes (vacas, cabras, etc), e javalis. Curioso que por vezes na caça de girafas, o veneno que usam nas lanças não é suficientemente poderoso e têm de perseguir a girafa durante alguns dias até que finalmente caia.

Uma característica principal das sociedades de bando é a sua ética igualitária dominante. Existem poucas distinções de estatuto, e essas são limitadas à idade (opinião dos mais velhos é respeitada), e liderança ocasional.

Quando um caçador regressa, distribui a carne entre todos do bando. Têm tradições para evitar egocentrismo que possa ameaçar a ética igualitária, como por exemplo a carne é insultada na sua quantidade e qualidade, quando é oferecida. Além da divisão de sexo no trabalho, não há especialização nessas sociedades.

Uma história interessante de Richard Lee, um investigador antropológico, ao concluir o seu estudo comprou vaca, a melhor vaca que encontrou para oferecer aos Dobe, mas quando chegou ao bando todos insultaram a vaca, por ser muito grande e que iria ser uma banquete horrível, e questionaram porque tinham comprado a vaca… Richard Lee sentiu-se envergonhado mas era a mesma função da tradição igualitária para o colocar no mesmo estatuto que os outros.

Geralmente os bandos como os Dobe são descritos e retratados como as sociedades mais pobres, contudo o antropólogo Marshall Sahlins argumentou que, dependendo do critério utilizado, os bandos são de diversas formas mais afluentes (abundantes) que sociedades industriais.

Sem propriedade privada, os bens são livremente emprestados e partilhados sem que haja um pedido. A falta de especialização económica significa que quase todos podem produzir qualquer objecto. Todas as mulheres fazem colecta, todos os homens caçam, todos sabem fazer tudo, todos os homens sabem fazer arcos e flechas, todos os homens sabem caçar. Não existem ricos e pobres, e há pouca acumulação de bens.

Por serem nómadas, terem posses torna-se pouco adaptável. Em contraste com países industrializados ninguém numa sociedade de bando passa fome, excepto em circunstâncias extremas. Sahlins argumenta que a afluência pode ser alcançada de duas formas: desejar muito e produzir muito; ou desejar pouco e sendo assim estar satisfeito com pouco.

Sahlins critica que a antropologia até então tinha representado mal as sociedades de bando, por serem interpretadas do ponto de vista ocidental de cultura de trocas de mercado.

Sahlins afirma que a escassez é um mito das civilizações tradicionais, é produto da civilização, que os desejos das pessoas são muitos e que os meios são limitados, a única opção é produzir o suficiente para satisfazer os desejos. Mas entre povos e economias primitivas, como os Dobe, eles desejam pouco, podem ser satisfeitos facilmente, um mundo com poucos desejos e mais que bens materiais para satisfazer essas necessidades; a economia é totalmente integrada na sociedade e cultura, as pessoas preocupam-se mais em fazer amigos do que acumular bens, e que tais sociedades caçador-colector são as sociedades afluentes originais, por não terem propriedade privada e serem nómadas.

Trabalham 20 horas por semana, e em 2 horas de colecta de nozes, uma mulher pode obter o suficiente para alimentar a sua familia por vários dias. Se a afluência for medida em tempo livre, as sociedades de bando são as mais afluentes do mundo.

Sahlins nota também que com o aumento em complexidade social, de bandos para tribos, a chefias e estados, quanto mais complexa a sociedade diminui o tempo livre e a importância de relações interpessoais e redes sociais; a quantidade de trabalho por pessoa aumenta e o tempo livre diminui. Curioso que até na nossa sociedade estudos revelam que quanto mais dinheiro ganhamos menos tempo livre temos.

Sahlins aponta também que a fome aumenta relativamente e absolutamente com a evolução de culturas. Provas e observações mostram que até mesmo no deserto o trabalho de uma pessoa pode alimentar 4 ou 5 pessoas, mais eficiente que a agricultura francesa ou norte americano nos anos 40 e 50.

Na sociedade moderna 1/3 da população passa fome. De acordo com o Banco Mundial, metade da população mundial ganha menos de 2 dólares por dia. Isto é uma condição impensável para os caçadores colectores, nunca passam fome, não acumulam comida, não transportam bens, e quando precisam de comida vão procurar, e caso não haja comida disponível migram para outro local ou podem até recorrer a relações com outros bandos para obter alimento.

A transição para a agricultura permite maior densidade populacional, mas essa transição envolve uma diminuição de tempo livre, e provas arqueológicas mostram também que as primeiras culturas agricultoras eram menos saudáveis que caçadores colectores. Podemos analisar ossos e observarmos stress nos ossos como indicação de doenças que emergiram quando as pessoas se tornaram sedentárias. Doenças eram muito mais comuns por serem transmitidas mais facilmente com concentração de pessoas, ficavam mais vulneráveis a perdas alimentares de agricultura em caso de desastre ou doença podem perder toda a colheita, mas se forem nómadas e caçarem e colherem não têm esses problemas.


Referências e Sugestões de leitura:

Marshall Sahlins, Stone Age Economics.

Richard Lee, The Dobe Ju/’hoansi.

Majorie Soshtak, Nisa: The Life and Words of a !Kung Woman.

Filme:

Jamie Uys, The Gods Must Be Crazy.

Yonomami

Os Yonomami são uma sociedade tribal que habita a floresta da Amazónia no norte do Brazil e sul da Venezuela. Com base no estudo do antropólogo Napoleon Chagnon, os Yonomami tornam-se famosos ficando conhecidos como “o povo feroz”. Característico de uma sociedade tribal, os Yonomami têm um líder na vila, embora esses tenham de liderar através do exemplo e persuasão em vez de exercer o poder de comandar, é uma função atribuída, têm de provar a sua generosidade, oferecer, negociar e fortalecer a sua posição de poder político.

A tribo Yanomami é outro estudo clássico da antropologia. A floresta da Amazónia é um ecossistema rico mas delicado, praticamente como uma bacia hidrográfica ou de drenagem. Possui a percentagem mais alta de biodiversidade de mundo, embora que o solo não seja adaptável a agricultura em grande escala. Por muito tempo pensava-se que não podia suportar as densidades populacionais para que sociedades grandes e complexas emergissem, embora provas arqueológicas recentes sugiram que a agricultura intensa tenha sido praticada à cerca de 4000 anos.

A sociedade Yanomami tem cerca de 22.000 pessoas divididas em mais de 200 vilas. Quando uma vila se torna demasiado grande, dividem em duas. As vilas têm em média 100-150 pessoas, mas podem ir desde 40 a 300 pessoas. Essas vilas são conhecidas como shabonos, grandes estruturas circulares rodeadas por paliçadas, ou conjunto de estacas.

O antropólogo Napoleon Chagnon iniciou o estudo da tribo Yanomami em 1964, e ficou impressionado pela ferocidade e igualitarismo reforçado dessa sociedade. Liderança política é baseada em estatuto alcançado, e os líderes têm alguma autoridade mas muito pouco poder para forçar alguém.

Chagnon não sabia o que esperar da tribo Yanomami, como iria ser recebido, então levou consigo comida enlatada. Ele é aceite pela tribo, mas quando comia o grupo Yanomami aparecia e exigia que Chagnon oferecesse um pouco, mas pediam cada vez mais e mais e nunca conseguia comer em privado. Porque para a tribo não era suposto Chagnon ter algo que os outros não tinham, ao guardar comida privada estava a confrontar o igualitarismo feroz. Teve alguns problemas ao se adaptar à vida Yanomami, e demorou um pouco até se integrar na sociedade e vida diária.

Os Yanomami praticam horticultura, e as principais colheitas são bananas da terra, mandioca, taro, batatas e tabaco. Caçam porcos, macados, veados e tatus. De três em três anos trocam de terreno, o que sugere ser resultado de pouca qualidade do solo, embora a tribo diga ser por se cansarem de cultivar.

Como os Dobe, os Yanomami trabalham muito menos que as pessoas nas sociedades modernas ocidentais. São uma sociedade patrilineal geralmente com tensão em relações entre os seus. Os homens podem ter mais que uma mulher, e isso é mais comum nos líderes. Homens vêm as mulheres como fracas e potencialmente poluentes, e a violência doméstica é comum.

Vivem num mundo repleto de espíritos, na maioria forças malévolas com as quais têm de lidar. Dividem o cosmos em 4 partes, ou camadas: a primeira no topo é desabitada mas é onde os primeiros seres viveram; por baixo vem o céu, que contém as versões Yanomami do paraíso e inferno; a terceira camada é a terra; e a última é o subsolo cheio de espíritos canibais.

Religião

A arquitectura das vilas reflete o encontro do céu, terra e o subsolo do cosmos. Fazem uma clara distinção entre “as coisas da vila” e as “coisas da floresta”. Acreditam que os humanos têm vários tipos de almas: a alma da vontade que abandona o corpo na morte e que sobe pela encosta até ao céu; outra alma que abandona o corpo e se torna um espírito traiçoeiro senão também malévolo; a alma do fígado que é vulnerável a roubos ou canibalismo pelos espíritos (isto pode resultar em doença física e até morte); e por último, todos os humanos têm um espírito duplo de alma e o destino do indivíduo está ligado ao do seu animal simbólico.

Os chamans Yonomami servem como mediadores entre os mundo espiritual e o mundo material e são invocados para curar doenças espírituais. O poder dos chamans reside na capacidade de atrair espíritos hekura (que ocupam os fígados). São espíritos belos e microscópicos que vêm do submundo. Chamans inspiram uma substância alucinagénica e fumam grandes quantidades de tabaco, entrando em transe no qual conseguem ver e comunicar com os espíritos escondidos do olho humano.


Referências e sugestões de leitura:

Napoleon Chagnon, The Yanomamö.

Florinda Donner, Shabono.

Jacques Lizot, Tales of the Yanomami.


Violência e canibalismo nos Yanomami

Embora a sociedade Yanomami seja extremamente igualitária têm a reputação de serem uma das sociedades mais violentas conhecidas.

Após a morte, as almas Yanomami viajam até aos céus enquanto os corpos são cremados e as cinzas consumidas pelos familiares. Este ritual canibal assegura a renovação da sociedade. A causa mais comum de morte dos homens adultos é assassinato, e a ferocidade é uma característica bastante valorizada culturalmente. As vilas estão integradas numa constante troca de alianças, ataques e guerras entre as vilas fazem parte da vida diária.

Homens Yanomami que já mataram outros homens são chamados de Unokais, uma designação de alto estatuto numa cultura que é praticamente igualitária. Unokais têm mais mulheres e filhos que homens menos ferozes, sendo assim a tendência reproduzida em grande escala através da estrutura familiar. Alguns antropólogos argumentam que a guerra Yanomami é causa de baixa disponibilidade crónica de proteínas e resultantes lutas por campos de caça. Por outro lado os próprios Yanomami afirmam que gostam de carne, mas valorizam mais as mulheres e que a verdadeira razão de guerra é para capturar mulheres.

Esta ferocidade e violência Yanomami tem uma origem mitológica da sua sociedade. A história da “lua de sangue” relata uma vila primordial de humanos sobrenaturais. Após a cremação de um desses seres, a lua roubou as cinzas que estavam prontas a ser consumidas. Para eles isso era o derradeiro insulto, roubarem os seus familiares, os antepassados. Então organizaram-se para apanhar a lua com arcos e flechas, atacaram a lua, e quando um homem finalmente fere a lua, onde o sangue da lua cai e forma uma poça foi de onde emergiu a sociedade Yanomami. O sangue da lua é associado com Ferocidade (waiteri).

Povos vizinhos são vistos como formas inferiores criadas de poças de sangue mais pequenas e diluídas com água, sendo assim inerentemente mais fracos. E foi esse sangue, o sangue da lua que criou a ferocidade dos Yanomami, uma característica bastante venerada, principalmente entre os homens, nunca deixar outros abusarem e explorarem, manter a guarda e vigília. Os Yanomami acreditam serem o povo mais feroz, porque surgiram da maior poça de sangue da lua.

Curiosamente, quando Shagnon chegou, eles integraram a origem de Shagnon na mitologia da lua de sangue, pensaram que a lua tinha sangrado muito a norte, de onde vinha Shagnon (EUA), tinha vindo de uma sociedade poderosa, tinha viajado num avião, e trazia tecnologia consigo. Desse modo foram capazes de integrar nova informação no seu modelo cultural existente.

Os Yanomami praticam um forma de canibalismo como parte de rituais funerários. Para eles, a morte está intimamente relacionada com renascença ou reencarnação. Praticam endocanibalismo (comer familiares) ao contrário de exocanibalismo (comer inimigos), e nem é uma caricatura grosseira de canibalismo: misturam apenas algumas das cinzas cremadas dos ossos numa papa e comem.

Outro exemplo é a comunidade Wari do Brazil, investigada pela antropóloga Beth Conklin, que comem carne frita dos falecidos como forma de compaixão, para que os vermes da terra não os comam. Nas sociedades canibais essa prática está ligada a crenças sobre morte e renascença.

Analisando um pouco mais a violência Yonomami, a violência varia em intensidade e frequência, desde violência doméstica a guerra aberta. Disputas entre homens são geralmente sobre mulheres, acusações de roubo e pouca generosidade. Disputas começam com argumentos verbais que podem passar a duelos peito-a-peito onde batem no peito um do outro até que alguém desista. Por vezes quando isso não resulta, os participantes podem usar armas como tacos ou machados, com a intenção de magoar, mas geralmente evitam danos físicos.

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Em caso de morte, os familiares do morto ficam na obrigação de vingar a morte. Tais vinganças são feitas através de ataques clandestinos na vila do inimigo para matar o assassino ou algum dos seus familiares. Quando isso se intensifica para uma sequência de ataques e resposta, uma guerra aberta pode surgir na qual uma vila tenta destruir a outra. Com guerras frequentes, as vilas Yanomami têm de manter uma rede de alianças com outras vilas. Os aliados podem ser chamados para combater um inimigo comum que ameaça uma vila. Oferecem também segurança económica em casos de má colheita ou campos de cultivo incendiados pelo inimigo.

Alianças são estabelecidas e mantidas através de um período recíproco de banquetes e festas, nos quais uma das vilas convida a outra. Este tipo de reciprocidade equilibrada do sistema de banquetes é um princípio de organização principal da sociedade Yanomami.

Esta questão de guerra Yanomami tem sido também analisada por uma perspectiva sociobiológica, que salienta o facto que os homens Yanomami que já mataram outros têm um estatuto especial. Todos eles passam por um ritual de purificação e adquirem um estatuto de prestígio de unokais (homens que mataram). Um unokai tem em média 2.5 vezes mais mulheres e 3 vezes mais filhos que outros. Deste modo matar assegura o sucesso de reprodução e, argumenta-se, através de uma combinação de pré-disposição genética e contexto familiar, a violência comece a dominar a sociedade.

Marvin Harris e outros argumentaram também que a guerra, não só entre os Yanomami mas também noutros povos, é baseada na pouca disponibilidade de proteína.

Harris e Michael Harner indicam que os Aztecs praticaram guerra e exocanibalismo para fornecer proteína à cidade capital. Harris afirma que os Yanomami têm insuficiência de proteína crónica e que guerras entre vilas surgem para gerir a escassez.

Por outro lado Chagnon afirma que a guerra não é devido a falta de proteína mas por outro recurso escasso: mulheres. O consumo proteico varia de vila para vila, mas a média é bem acima do mínimo necessário, e vilas com muita proteína lutam tanto como vilas com pouca proteína. Os próprios Yanomami afirmam ser devido a mulheres.

No entanto, Patrick Tierny (darkness in eldorado) e outros argumentam que não são tão violentos como Chagnon sugere, e que o próprio Chagnon incitou à muita violência por ele documentada, ou que investigou os Yanomami numa época de violência particular. No entanto a maioria das acusações de Tierny foram refutadas.


Referências e sugestões de leitura:

Beth Conklin, Consuming Grief.

Patrick Tierney, Darkness in El Dorado.

Marvin Harris, Cannibals and Kings: Origins of Culture.

Filme:

Timothy Asch, The Ax Fight.